Revista “Pesquisa”
FAPESP
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Agosto 2004 – Número Especial, pp. 46 - 49

A INDÚSTRIA DO MOVIMENTO
(Resumo do original)


Renée Castelo Branco


Se devidamente praticado, esporte não é só saúde e lazer. Produz também história e ciência, gera riquezas e empregos, com repercussões em diversos campos da vida nacional. De 1996 a 2000, as atividades econômicas ligadas a essa área cresceram cinco vezes e meia a mais do que Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil - 12.34% contra 2,25%. Em 1999, uma projeção da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do rio de Janeiro indicava que o esporte respondia por 1,7% do PIB nacional, algo como US12 bilhões. Estima-se que aqui as atividades físicas, com ou sem fins competitivos, gerem um milhão e meio de postos de trabalho diretos e indiretos, mais do que a indústria têxtil. Em 2003, ainda segundo dados da FGV, só de empregos diretos eram 963 mil, sobretudo em campos e instalações para a prática de futebol, academias, centros hípicos e náuticos, clubes esportivos, autódromos. Isso sem contar os pesquisadores e professores que tocam 43 laboratórios cujo tema central ou auxiliar é a atividade física. São centros que estudam a fisiologia ou a biomecânica (movimentos) do exercício, benefícios, traumas e contusões decorrentes do esporte, entre outros aspectos.


Essas informações e muitas outras – de caráter histórico, econômico, científico ou social – constam do Atlas do Esporte no Brasil, projeto que, com o auxílio de quase quatrocentos voluntários, garimpou dados juntos a diversas fontes para traçar um panorama das atividades físicas em território nacional,. “Estamos lançando o atlas em CD ROM e em setembro na forma de um livro”, diz o professor de educação física Lamartine Pereira da Costa, da Universidade Gama Filho (UGF), do Rio de Janeiro, coordenador da iniciativa, que montou um consórcio de onze entidades para viabilizar a empreitada. "O atlas é um trabalho hercúleo, um diagnóstico no sentido amplo, que mostra de onde viemos e para onde devemos ir”, afirma o velejador e secretário da Juventude, Esporte e Lazer do Estado de São Paulo, Lars Grael, que escreveu um dos capítulos e colaborou na revisão do projeto. “Deverá servir de base para o desenvolvimento da indústria do esporte e a formulação de políticas para o setor."


Para Costa, que tem doutorado em filosofia, a indústria do movimento ainda pode crescer mais ainda no Brasil. "No mundo desenvolvido, as atividades físicas respondem por 2% a 2,5% do PIB e empregam em média 2% da mão de obra. Na Alemanha, por exemplo, a indústria do esporte é maior que a petroquímica", afirma o pesquisador da UGF. Costa diz que o Brasil é o quarto ou quinto do mundo nesta indústria: “No esporte, os indivíduos financiam, as pessoas pagam para fazer atividades físicas. O governo só tem que desobstruir caminhos. Pode ajustar o que já existe e funciona".

Segundo o Atlas, quase todo mundo que pratica alguma atividade física ou esporte, ou seja, mais da metade da população brasileira, o faz ocasionalmente. Isso inclui pessoas que vão a pé ou de bicicleta para o trabalho ou se dedicam regularmente a tarefas domésticas. A atividade física com mais praticante ocasionais é a pesca, com 25 milhões indivíduos que, vez ou outra, jogam o anzol para pegar um peixe (o futebol vem em segundo lugar, com 23 milhões de praticantes). Já as pessoas que, pelo menos uma vez por semana, praticam regularmente um esporte, fazem ginástica ou caminhadas com o propósito de se exercitar não chegam a 11 milhões. E apenas 749 mil podem ser consideradas muita ativas: freqüentam academias de ginástica ou praticam algum esporte de competição duas ou mais vezes por semana. A classificação da atividade física adotada pelo Atlas seguiu parâmetros internacionais.

Há vinte mil academias de ginástica no Brasil, apenas os Estados Unidos têm mais estabelecimentos desse tipo, embora 13,2% dos norte-americanos freqüentem ginásios e aqui só 2%. Segundo Costa, existem boas perspectivas para os negócios do esporte ligados ao turismo, uma tendência mundial. Há um polo de turismo no Pantanal, ligado à pesca, muitas oportunidades no setor de esportes de praia, sobretudo no Nordeste, mas faltam dados sobre esse ramo da atividade física. Essa é uma das lacunas registradas pelo atlas, que, entre outros objetivos, tem o de apontar o que falta no setor. Há ainda pólos importantes de esportes considerados de elite, mas que geram muitos empregos, como hipismo e golfe, muito procurado pelo capital estrangeiro.

Alguns dos dados do Atlas foram levantados pela equipe de voluntários (professores, dirigentes), outros são reproduzidos de fontes secundárias com FGV, Instituto Nacional do Câncer (Inca) e entidades de classe. “O projeto é um mapeamento, não é um censo”, explica Costa. Buscou-se a memória do esporte e não a história, algo muito mais sistemático. Cada voluntário (ou equipe) escreveu um capítulo, seguindo os padrões do mapeamento. Em suas mais de 900 páginas, o Atlas privilegia as informações sobre esportes olímpicos. Mas trata também dos não-olímpicos, dos esportes radicais (que crescem muito), dos tradicionais de algumas regiões (como rodeio, peteca e capoeira). E de esportes de raízes, como os jogos indígenas, e até de brincadeiras infantis. Ao todo, o Atlas cobre 21 grandes temas, enfocando ainda os Sistemas Esportivos Nacionais, como os do Sesi, da Associação Cristã de Moços e outros, e o tema das Ciências do Esporte.

Só para se ter uma idéia da atual pujança do setor, no começo do século passado sequer havia uma faculdade de educação física no país. A primeira foi criada na década de 1930. Era uma escola de educação física, que depois foi incorporada pela Universidade de São Paulo, fundada em 1934. Hoje, são 397 cursos em 279 faculdades, uma quantidade só superada e pelos EUA. Os primeiros professores dos cursos superiores de educação física foram formados na Alemanha, a partir de 1821. Eram filhos de imigrantes, que iam estudar no país de origem de seus pais, e em geral viviam em cidades brasileiras portuárias. Tais regiões formaram pólos (clusters) esportivos. Muitos sobrevivem até hoje. Os mais importantes brotaram na regiões Norte e Nordeste (em Belém, Manaus e São Luiz) - e no Sudeste (no Rio de Janeiro e Santos).

Um deles, o mais antigo, o Turnen, no Rio Grande do Sul, que deu origem ao atual clube SOGIPA, tem uma história singular. Formou-se ao longo dos rios, aliás como aconteceu anos depois com o pólo do Rio Tietê, em São Paulo. Os alemães ocuparam o território gaúcho com clubes à beira dos rios e os italianos as montanhas e as cidades. A primeira piscina do Brasil foi construída em 1885 nas margens do Rio Guaíba, em Porto Alegre. Os clubes alemães em geral estavam associados a centros culturais, a escolas e a igrejas freqüentadas pela comunidade, católica e protestante. Isso gerou uma atividade econômica dinâmica, e até o começo do século 20, o Rio Grande do Sul era muito forte no esporte. Esses clubes apoiaram-se inicialmente no Movimento Turnen, que preservava a identidade étnica dos alemães. Por isso, no começo da 2ª Guerra Mundial, quando Getúlio Vargas optou por apoiar os Aliados, os clubes gaúchos foram fechados.

As guerras mundiais também afetaram o pólo de Niterói, onde a difusão de clubes esportivos foi influenciada pela rivalidade entre ingleses e alemães nos anos dos conflitos bélicos. A cidade fluminense, um grande centro de esportes, acabou gerando um pólo dentro do pólo: a vela, modalidade esportiva que, ao lado do atletismo, garante muitas medalhas olímpicas ao Brasil. De acordo com o Atlas, quase todas as medalhas dessa modalidade foram conquistadas por descendentes de alemães: seis do Rio Iate Clube de Niterói, um do Iate Club do Rio de Janeiro e cinco do Iate Club Santo Amaro, na Represa Guarapiranga, em São Paulo. O velejador paulista Robert Scheidt, que tem um ouro e uma prata em Olimpíadas, é um desse campeões de origem germânica. A história do iatismo no Brasil começou em Niterói perto do Natal de 1895, quando o clube de Regatas Gragoatá, promoveu regatas de remo e vela. Anos depois, foi criado o que talvez tenha sido o clube de vela mais antigo do país: o Iate Clube Brasileiro, formado por sócios brasileiros, ingleses e alemães. Quando começou a 1ª Guerra Mundial, em 1914, os ingleses se retiraram e criaram outro clube nas redondezas, o Rio Iate Clube. O Iate Clube Brasileiro foi um pioneiro. Editou uma revista de vela e criou o protótipo do veleiro Guanabara, e ainda inventou um modelo de mastro, segundo apurou o Atlas do Esporte no Brasil, acabou sendo adotado em outras partes do mundo.

Um dos clusters esportivos mais importantes criados a partir da imigração européia no século 19 - o do rio Tietê, na cidade de São Paulo - não foi derrotado pelas guerras, nem por uma revolução, mas perdeu a sua pujança devido à deterioração do meio ambiente depois dos anos 1940. A saga do pólo começa em 1889, ano da Proclamação da República, quando o clube Esperia, fundado por italianos, se instala às margens do Tietê, numa região então arborizada, conhecida como Chácara da Floresta. Em poucos anos, onze clubes se instalaram nas redondezas e acabaram desenvolvendo um dinâmico centro de natação e remo. Com a crescente poluição do rio, muitos clubes migraram para outras áreas da cidade. O Germânia, atual Pinheiros, foi, por exemplo, para perto de outro rio, o Pinheiros, numa zona nobre da cidade. A natação também se expandiu para clube do interior de São Paulo, onde até hoje é forte. A Federação Paulista de Natação, criada no auge do pólo do Tietê, tem atualmente 150 clubes filiados e abriga 75% dos nadadores que defendem o Brasil em competições internacionais.